Gastronomia por Roberta Sudbrack
15/06/2007 ..
Keep going...
Lembra daquela propaganda das pilhas Duracell, com o coelhinho que dizia: keep going, going, going? Pois é, ando assim, igual ao coelhinho, vou indo, mas se parar para pensar, o cérebro entra em curto circuito e é capaz de cortar a comunicação com o resto do corpo!
A minha bateria não é Duracell, é o amor! Adoro meu trabalho, meu staff, meus chuchus, minhas anchovas, meus quiabos, minhas laranjas... Adoro acordar todos os dias e saber que terminarei a noite no aconchego da minha cozinha. Adoro o cheiro do pão acabando de assar, por volta das 19h30m e o seu perfume descendo as escadas e tomando conta do salão.
Adoro a loucura da cozinha, a adrenalina do momento. Os berros, os sorrisos, as execuções quase perfeitas. Detesto as imperfeitas! Adoro clientes dispostos a encontrar a felicidade, posso nem ser eu esse guia, mas de vez em quando a gente até que dá uma mãozinha.
Lembro-me de quando meu querido e saudoso Junior, o meu primeiro Golden Retriever, estava muito doente e eu tive que viajar. Eu ainda era chef do Palácio da Alvorada e tinha dois banquetes para preparar naquela semana. Ele estava muito mal, nas últimas, e eu não queria ter saído de perto dele nem por um segundo, mas não tive escolha. Quando estava fazendo check in na companhia aérea, recebi o telefonema de um jornalista, que tinha combinado uma entrevista e, entre outras coisas, queria saber qual era o meu grau de satisfação com a vida, o meu nível de felicidade entre 1 a 10. Apesar da dor que eu estava sentindo, disse sem titubear: 9! Ele disse: “Nossa, você é a primeira pessoa que dá uma nota tão alta!”.
Hoje em dia eu diria: 10! Sem titubear também, não fosse o cansaço. O cansaço nunca me assustou, sempre trabalhei muito na vida. Mas quando até a Duracell ameaça falhar e o coelhinho começa a diminuir o ritmo, aí eu me assusto. Como não quero pensar na possibilidade de baixar essa nota, vou aproveitar o fim do inferno astral para comemorar mais um ano de felicidade. Além de fazer uma pausa para recarregar as baterias e não comprometer o funcionamento dessa máquina!
Volto na terça!
Até! Lá! Remem!!!!
14/06/2007 ..
Camiseta velha...
Se eu for parar para pensar nas coisas que mais gosto na vida, certamente camiseta velha é uma delas! Quanto mais velha, melhor. Quanto mais surrada, mais gostosa. Quanto mais lavada, mais aconchegante! Pode ter furinhos, buraquinhos, rasgadinhos. Não importa: se é velha, é boa.
A primeira coisa que faço ao chegar em casa é me livrar da minha armadura e vestir uma camiseta velha. Tudo fica mais leve, mais confortável, mais caseiro. Posso estar com o tempo contado, não importa. O tempo que for é o bastante para curtir a sensação que ela deixa no corpo. Parece que me revigora, me abraça, me aninha e me põe pronta para a próxima!
Eu adoro camiseta de qualquer maneira – se pudesse me vestiria sempre com elas - mas as velhas são o meu xodó. Não admito que ninguém pense na possibilidade de se desfazer delas. Prefiro doar algumas novas a abrir mão de alguma velha. Conheço todas, pelo toque, pelo caimento, pela sensação que cada uma causa. Escolho sempre pensando nisso. Dependendo do meu estado de espírito posso estar precisando daquela que eu trouxe da viagem que fiz a Praga. No outro dia pode ser que a que veio da Praia do Forte na Bahia, seja mais apropriada. Quem sabe a que ganhei há 15 anos (!) de um amigo querido, e que toda vez que visto penso nele me abraçando...
Além disso não existe nada melhor do que preparar uma comidinha em casa, abrir o melhor vinho que tiver na adega, arrumar a mesa com toda pompa e circunstância, e se entregar a todas essas sensações de camiseta velha! Parece que tudo fica mais natural, mais verdadeiro, menos rebuscado. Acho até que a gente aproveita mais, sente mais o gosto das coisas, vive mais intensamente as sensações. Talvez pela liberdade que a falta de armadura propicia. Pela possibilidade de ser e estar exatamente como se gostaria.
Deveríamos vestir mais camisetas velhas! Todos os dias, a qualquer hora, para ir a qualquer lugar! Sem a preocupação de saber o que os outros estão pensando, ou qual convenção nos impede de simplesmente sermos felizes vestindo camisetas velhas!
Acredito que o mundo é bem mais interessante visto através dos olhos de alguém que veste uma camiseta velha...
Até!
13/06/2007 ..
Recapitulando...
Tudo bem, chef não erra, se engana. Mas quanto ao inferno astral acho que me precipitei um pouco quando disse que o meu andava muito bem, obrigada! Agora, mais próximo do seu final, ando sentindo os seus efeitos. Principalmente nas emoções. Eu já sou do clube dos que “até beijo de novela me faz chorar”. Mas ultimamente ando me emocionando por tudo. Choro no carro ouvindo música, vendo cachorro na rua e velhinho conversando na praça, experimentando um bom vinho, um bom pão com mortadela...
Hoje cheguei mais cedo ao restaurante porque passaremos o dia inteiro gravando um especial para a televisão argentina sobre a casinha laranja à beira do canal. Cheguei durante a entrevista do Antônio, nosso gerente de relacionamentos, era a primeira entrevista do dia, e aquela cena, claro, já me emocionou. Assisti escondida a sua compenetração, a sua seriedade, a sua emoção em estar nos representando como abre-alas.
Depois foi a vez do subchef, o nosso subsuper. Fiquei observando aquela pessoa tão única e tão lutadora - que um certo dia me sorriu pelas cozinhas da vida - sentado em frente às câmeras de uma TV internacional, falando com desenvoltura e segurança, sobre o nosso dia-a-dia. Descrevendo a nossa filosofia de trabalho, se emocionando ao falar do peixe fresco, dos legumes, das horas de trabalho exaustivo.
Ando muito cansada, todos nós estamos. Não tem sido fácil, o que é certamente maravilhoso, sinal de que estamos vivos e que a nossa filosofia da simplicidade também. Mas de fato estamos cansados. E o cansaço turva as emoções, transtorna as idéias, compromete a concentração. Ainda assim, apesar da dor no corpo e da mente confusa, continuamos emocionados e emocionando. Isso é o que importa, nada mais.
Depois de algum tempo no restaurante conhecendo as instalações, a nossa filosofia e o nosso staff, a jornalista me perguntou o porquê do restaurante estar chamando tanto a atenção da imprensa internacional. O que estamos fazendo de tão diferente para causar tanta curiosidade? Por que estão falando tanto da gente? Afinal não seguimos a tendência atual, não fazemos espumas, não usamos nitrogênio líquido, não temos nem forno combinado na cozinha!
A resposta foi simples como tudo o que fazemos: emoção. Vivemos e trabalhamos em busca dela todos os dias. Nos atiramos diariamente dentro dos pratos, inteiros e verdadeiros à procura dessa emoção. Audaciosos e felizes pela chance de estar aqui, dia após dia, fazendo exatamente o que sempre sonhamos fazer.
Contaram que durante a entrevista do subsuper, quando ela pediu para que ele falasse de mim e de como era trabalhar comigo, ele simplesmente deixou uma lágrima escorrer e disse: “Falar o quê? Minha chef é isso. Trabalhar com ela é isso”.
Eu é que digo: falar o quê?
Então, recapitulando, inferno astral existe sim, mas apesar da confusão astral que ele causa, pode ser maravilhoso.
Até!
12/06/2007 ..
Sampa, festas e aquele mesmo encontro...
Voltei a Sampa ontem, mas literalmente voando. Milagrosamente os aerportos ajudaram e os atrasos não foram insuportáveis. Mas a agenda estava, e por isso, os prazeres gustativos foram prejudicados. Encontros “top secret” de negócios à tarde e, à noite, as sempre enfadonhas festas de premiação. A de ontem foi a da revista Prazeres da Mesa, onde, graças a vocês, eu estava entre as finalistas ao prêmio de chef do ano.
Conheço chefs que só comparecem a essas festas se souberem que vão ganhar. Compreendo. São chatas mesmo, come-se mal, bebe-se mal, ouve-se falar mal dos outros. Um horror. Eu sabia que não iria ganhar, mas acho saudável cultivar o espírito esportivo e tentar enxergar o lado bom desses encontros. A gente tem que sair mais dos nossos mundinhos e trafegar suavemente pelo dos outros. Incentiva a convivência, a alegria e a humildade.
Conheci pessoas incríveis, educadas e interessantes. Entre eles um blogueiro de primeira e de quem sou fã, o Kats. Alguns fãs também vieram falar comigo, me senti meio pop star em terras alheias, mas foi emocionante. Gosto de ver o brilho no olhar, a emoção quase difícil de conter, a expectativa da resposta. É lindo, intenso e... assustador! Me faz pensar: volte já para a cozinha, você tem uma responsabilidade e tanto, além de um jantar para preparar!
Na saideira, fui carregada por amigos ao ótimo restaurante Mestiço, e adivinhem quem encontrei? Ale!
São Paulo é incrível, místico, eu diria!
Até!
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